segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Bagão Félix: reforma na saúde tem de se basear no bom-senso


O ex-ministro da Segurança Social Bagão Félix defendeu hoje que "qualquer reforma com pés e cabeça" na área dos cuidados "tem de se basear no bom-senso".
"Nos cuidados de saúde está implícita uma exigência ética e deontológica que ultrapassa em muito a generalidade dos bens e serviços", disse.
Bagão Félix intervinha no segundo e último dia de trabalhos do congresso "Que sistema de saúde para Portugal", organizado pela Associação dos Médicos Católicos Portugueses.
Entrecruzam-se, na prestação dos cuidados de saúde, "a sua natureza humana, a aspiração de equidade", bem como "as especificidades estritas", as regras éticas e deontológicas e "uma evolução tecnológica alucinante no diagnóstico e terapêutica".
O antigo governante realçou ainda que se impõe "uma gestão cada vez mais exigente numa economia de escassez", "uma crescente consciencialização dos direitos das pessoas" e "o imperativo da privacidade".
"A ética está sempre antes da política", enfatizou, reconhecendo que "qualquer mudança reformadora na prestação dos cuidados de saúde é palco de muitas e apaixonadas discussões".

Na sua opinião, reformar o sector da saúde "é uma tarefa bem mais difícil de anunciar do que de pôr em prática".
O cirurgião Manuel Antunes, que interveio também na fase final dos trabalhos, lembrou que os cuidados de saúde em Portugal absorvem cerca de 10 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), valor superior à média da União Europeia, que ronda os 8,4 por cento.
Ao afirmar que em Portugal os gastos com saúde "quintuplicaram nos últimos 20 anos", Manuel Antunes preconizou que "esta escalada um dia tem que terminar, o que já deveria ter acontecido ontem".
O catedrático e médico dos Hospitais da Universidade de Coimbra abordou "a falência do modelo de gestão do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que tem sido seguido até aqui".
Importa, por outro lado, acautelar a separação do exercício da medicina privada das actividades que os profissionais cumprem no âmbito do SNS.
"Sem duplicações e sem promiscuidades", acrescentou Manuel Antunes.

Duarte Lima, antigo líder da bancada parlamentar do PSD, interveio sobre a "Perspectiva do utilizador".
O advogado caracterizou os cuidados do SNS pela sua "boa medicina, bom cuidado humano e boa organização logística". Lusa

1 comentário:

Movimento de Acção na Saúde disse...

Movimento Acção na Saúde
http://accaonasaude.blogspot.com

EDITORIAL

Terminou mais um ciclo eleitoral. Nas legislativas, o PS perdeu mais de meio milhão de votos e 23 deputados, formando governo, agora sem maioria absoluta. Este desgaste significativo expressa de forma distorcida a contestação social que marcou o anterior governo. Deram-se lutas sucessivas de milhares de trabalhadores do sector público - com destaque para os professores – e de empresas do sector privado, que fecharam ou ameaçaram fechar; contestação popular por todo o país contra o encerramento de maternidades, urgências e centros de saúde; algumas das maiores manifestações desde o 25 de Abril. Mas tudo isto foi insuficiente para derrotar definitivamente Sócrates. Para tal, contribuíram a estratégia das direcções sindicais que, não só advogaram “tréguas eleitorais”, como assinaram vários acordos vergonhosos com o governo, bem como a das forças à esquerda do PS que abdicaram de construir uma plataforma unitária que surgisse como alternativa real de governo. Assim, Sócrates mostrou que a opção era entre ele e Ferreira Leite e Manuel Alegre aproveitou para apelar ao voto no PS, impedindo a perda de votos de um importante sector crítico que representava.

O novo Sócrates é igual a si mesmo, não nos iludamos. Na educação, Isabel Alçada já afirmou que não alterará a avaliação dos professores e o seu estatuto de carreira. No trabalho, Helena André - profissional sindical desde os 21 anos – fez prontamente saber que não será a ministra dos sindicatos e que “o anterior governo lançou uma série de políticas muito importantes" e que essas bases têm de ser consolidadas, estando fora de questão a revogação do Código do Trabalho. Quanto à saúde, a substituição ministerial deu-se na anterior legislatura, não para mudar de políticas, mas para travar a contestação. Até o ex-Director Geral da Saúde, Constantino Sakellarides, afirmou: “Há ministros do núcleo duro e há ministros simpáticos para apaziguar o povo. E a ministra da Saúde faz parte destes.” “Todas as reformas do Correia de Campos continuaram com um ritmo próprio da segunda parte do ciclo político.” Que é como quem diz, só não avançaram mais no ataque aos trabalhadores e aos utentes do SNS porque tinham de acalmar os ânimos e preocupar-se em ganhar as eleições novamente.

Mesmo sem maioria absoluta, Sócrates tem nas bancadas à sua direita muitos interessados em sair da crise à custa dos trabalhadores e do desmantelamento dos serviços públicos, que apoiarão as suas medidas neste sentido. A nossa resposta terá de ser de forte oposição, sem tréguas. À esquerda que não se revê neste governo, nomeadamente ao BE e PCP, apelamos para que lute unida, desde já, no parlamento e nas ruas. No parlamento, como oposição frontal, recusando apoios pontuais a medidas supostamente “positivas”; nas ruas, preparando novas mobilizações, ainda mais fortes, que o enfrentem e derrotem. As direcções sindicais devem, por sua vez, organizar a luta contra o código do trabalho, pela reposição de direitos na Segurança Social, pela redução do horário máximo semanal para as 35 horas, sem redução de salário, para combater o desemprego. Devemos também, desde já, pressionar os dirigentes sindicais e mobilizar-nos para que as nossas carreiras não sejam feitas à medida do governo, nas mesas de negociações, mas que traduzam melhorias nas nossas condições de trabalho. Com este governo já tivemos más experiências que cheguem.